Vision Conference

Nesse início do ano, de 14 a 15 de janeiro, aconteceu em Seattle (EUA), mais uma edição da “Vision Conference”, organizada pela Meister Media Worldwide, que mantem, dentre outros, a PrecisionAg (Revista Digital). A AsBraAP foi convidada a apoiar e aceitamos. Como contrapartida nos ofereceram a franquia para um participante e o sócio Rodrigo Trevisan, que estava na região, aceitou nos representar. Ele escreveu um texto reportando a visão dele sobre o que foi tratado no evento e além disso, juntou um texto dos organizadores, que circulou por lá. Ambos, mais a programação do evento, estão aqui disponíveis. Recomendamos as leituras, que apresentam uma visão bastante atual e crítica sobre o que acontece na nossa Agricultura de Precisão.

PrecisionAg Vision Conference

O evento foi realizado entre os dias 14 e 16 de janeiro de 2019 em Seattle, ao norte da Costa Oeste dos EUA, próximo à divisa com o Canadá. A cidade é considerada um polo de inovação, onde estão localizadas as sedes de grandes empresas de tecnologia como Amazon e Microsoft. Cerca de 200 pessoas participaram do evento, a maioria proveniente dos estados da Costa Oeste norte- americana, principalmente Califórnia. Segundo a equipe organizadora, mais de 135 organizações estavam representadas no evento. Em geral os participantes eram os fundadores ou diretores de posições estratégicas das empresas, dos mais diversos segmentos. Também estavam presentes alguns pesquisadores das principais universidades e representantes de associações de produtores, tanto de grandes culturas como de frutas e hortaliças. Um dos principais diferenciais do evento, apontado pelos participantes, é a oportunidade de networking.

Na segunda-feira ocorreu o evento Microsoft: IoT for Earth, uma espécie de pré-lançamento da plataforma da Microsoft para agricultura digital. A solução deles será lançada com o nome de FarmBeats e o objetivo da apresentação foi despertar o interesse de possíveis parceiros. Segundo eles a plataforma busca disponibilizar as ferramentas da Microsoft, principalmente da plataforma Azure, aos parceiros que tenham competência e experiência no mercado agrícola. Várias tecnologias foram apresentadas pelo setor de desenvolvimento da Microsoft como possíveis blocos dessa plataforma. Entre elas destacam-se o desenvolvimento de protocolos de transmissão de dados entre sensores usando os espaços não alocados das frequências usadas na transmissão de canais de televisão. Mais detalhes podem ser encontrados no site.

As discussões no evento principal foram iniciadas com uma reflexão sobre a adoção da agricultura de precisão nos EUA. Em geral aceita-se que cerca de 60% da área cultivada com grandes culturas (milho, soja, algodão, trigo e outros cereais) utiliza ferramentas de agricultura de precisão, principalmente aplicação de algum insumo em taxa variável. Não existe um levantamento sistemático da utilização de AP na produção de frutas e hortaliças, mas as estimativas são de que apenas 10 a 20% da área utilize alguma ferramenta, principalmente para monitoramento e controle da irrigação. Como vencer o dilema do valor agregado versus a escala da produção foi um dos pontos abordados. Embora as culturas de alto valor agregado proporcionem um retorno maior e mais imediato do investimento em tecnologia, a falta de escala faz com que os produtores não achem que se faz necessário adotar novas tecnologias e a indústria prefere focar no desenvolvimento de soluções que possam ser adotadas em larga escala. Os principais casos de sucesso apresentados foram obtidos em situações de alto valor agregado e larga escala, como na produção de uvas, maçãs e alface.

Outro ponto decisivo para a adoção de novas tecnologias é a aceitação pelos produtores e pela sociedade. A crescente oposição em vários mercados consumidores à introdução de alimentos transgênicos e mais recentemente ao uso da edição gênica foram usados como exemplos. As manifestações realizadas durante o fórum internacional de robótica na agricultura (FIRA) no ano passado na França foi o exemplo mais recente. O evento reúne as novidades do uso de robôs na agricultura, que vem sendo interpretados pelo público em geral como uma ameaça ao emprego dos trabalhadores agrícolas. Discutiu-se sobre a importância de comunicar os benefícios das novas tecnologias e como elas poderão ser utilizadas para aumentar a capacidade humana ao invés de substituí-la. A mesma preocupação foi demonstrada por consultores e representantes de associações de produtores, uma vez que nos EUA mais de 80% dos produtores confiam em consultores externos para auxiliar na maioria das decisões agronômicas. Soluções que prometem utilizar “big data” e “machine learning” para automatizar as decisões dos produtores não terão boa aceitação, ao menos num horizonte dos próximos cinco a dez anos. O que o produtor busca são soluções simples de utilizar e que apresentem um retorno significativo e facilmente mensurável.

Ainda sobre o uso de robôs para substituição da mão de obra, principalmente nas culturas com manejo mais intensivo, a opinião dos produtores é que existem muitas etapas intermediárias de otimização que tem sido negligenciadas pela indústria que poderiam trazer retornos imediatos, de modo que é mais importante ir evoluindo aos poucos do que ficar esperando pelo robô perfeito. Essa foi uma das visões repetidas por mais vezes durante o evento. Precisamos resolver os problemas de agora e não os que poderão existir em 2050. As soluções devem buscar atender a maioria da audiência e não apenas os “early adopters”. De forma geral as empresas que tem sua origem mais próxima da agricultura já parecem ter absorvido esse conceito e tem trabalhado para entregar essas soluções aos produtores, enquanto que empresas puramente de tecnologias digitais que tem entrado no mercado agrícola nos últimos anos ainda tem visões mais distantes da realidade, baseadas em sonhos futurísticos. Existem de fato vários exemplos de inovações disruptivas que foram alcançadas por empresas alheias ao segmento, portanto não podemos descartar a significância dessas iniciativas.

Também relacionado ao processo de inovação, discutiu-se sobre a necessidade de recursos para financiar o desenvolvimento de novas soluções. As empresas de capital de risco (Venture Capital), que tipicamente estão associadas ao financiamento do desenvolvimento de soluções disruptivas, tem como característica a expectativa de retorno rápido e exponencial do capital investido. Esse modelo muitas vezes tem se revelado predatório para a realidade da agricultura, pois os resultados das startups muitas vezes são limitados ao número de safras realizadas por ano, que na maioria dos casos é apenas uma. Isso faz com que as iterações necessárias para o aprimoramento da solução levem muito mais tempo do que em outras áreas da economia. O acesso a uma fonte de financiamento que seja suficientemente paciente para esperar pelos resultados pode ser um dos fatores decisivos para o sucesso da empresa e da tecnologia. O estabelecimento de parcerias público-privadas e os consórcios de produtores e empresas foram apontados como possíveis soluções para esse dilema.

O outro lado dessa moeda é a importância do produtor como o agente de validação das tecnologias e muitas vezes o principal prejudicado caso ela falhe. O compartilhamento do risco por parte das empresas foi considerando como um importante facilitador da adoção de novas tecnologias pelo produtor. Uma das limitações para implementação de modelos de negócios em que o risco é compartilhado é a dificuldade de mensuração do risco e de eventuais ganhos ou prejuízos com a adoção de diferentes tecnologias. Como exemplo, o uso de prestadores de serviços para executar operações chave como plantio e colheita poderia ser uma estratégia de redução de custos para os produtores, uma vez que essas operações exigem a imobilização de um grande montante de capital em equipamentos que chegam a ser utilizados por menos de duas semanas em um ano. O problema é que todos os produtores de uma região desejam fazer essas operações praticamente na mesma data. Não existem formas amplamente aceitas de prever qual seria a perda de produtividade caso a data de plantio fosse atrasada em X dias, o que possibilitaria otimizar o uso das máquinas ao mesmo tempo que assegura-se que o produtor seria ressarcido em caso de atraso, gerando uma relação de confiança. A mesma dificuldade também é observada quando deseja-se calcular o retorno do investimento em qualquer tecnologia, solução ou produto, uma vez que uma comparação justa, em condições equivalentes, com e sem o uso da nova ferramenta muitas vezes não é possível devido às interações com o solo e o clima.

Considerado como um dos entraves no desenvolvimento de soluções de agricultura digital, a falta de padronização dos dados gerados por diferentes sensores e equipamentos também foi discutida no evento. O clima é de otimismo quanto a isso, principalmente devido a iniciativas globais como o AgGateway e o desenvolvimento de API’s e ferramentas de conversão de formatos. Ainda existe muito para ser feito principalmente por parte das empresas que geram os dados, mas parece existir um consenso da necessidade de priorizar iniciativas nesse sentido e favorecer a adoção de um padrão que atenda a maioria dos interesses, evitando que padrões externos sejam impostos.

O outro grande problema em relação a coleta de dados de sensores e equipamentos é a transferência desses dos pontos onde as medidas são realizadas até as plataformas. Apesar dos mapas das operadoras de telefonia móvel nos EUA mostrarem uma cobertura de quase 100% do território, a realidade observada no campo é que a maioria das áreas não está conectada. Existem programas governamentais sendo implementados para ajudar a resolver o problema de conectividade rural, priorizando as cidades com menos de 10 mil habitantes e que sofreram redução da população nos últimos anos. A conectividade está sendo encarada como uma das necessidades básicas do ser humano, assim como acesso a água e alimentos, e promove-la é visto como uma das ferramentas para conter o intenso êxodo rural que vem sendo observado nos EUA. Apesar do enorme montante que será investido nisso nos próximos anos, o problema continuará existindo nos locais mais distantes das cidades.

Um dos tópicos que está no centro das discussões de agricultura digital nos segmentos de frutas e hortaliças é a rastreabilidade e transparência da produção. Os produtores têm sido pressionados pelas grandes redes de distribuição de alimentos que buscam atender os anseios de um mercado consumidor cada vez mais exigente. O processo foi intensificado no último ano depois da ocorrência de epidemias de intoxicações alimentares em vários estados ligados a um mesmo produto com uma origem comum. As agências de saúde e de proteção do consumidor têm oferecido fortes críticas a falta de rastreabilidade dos produtos e suspendido as licenças de operação de todos os produtores de determinadas regiões suspeitas de serem o foco das contaminações. Isso tem forçado os produtores a buscarem ferramentas de monitoramento para dar mais transparência a produção. Os outros gargalos dos produtores desse segmento também estão relacionados às mudanças na legislação e pressão dos consumidores. O primeiro é a disponibilidade e o custo da mão-de-obra, que foram diretamente afetados pelas políticas de imigração impostas pelo governo Trump. O segundo é a escassez e as tarifas sobre a utilização de água para irrigação, que é a base da produção nos vales irrigados da Costa Oeste, que em geral representam mais de 90% da produção de frutas e hortaliças nos EUA.

De maneira geral a evolução do que tem-se definido como agricultura digital parece estar mais ligada a demandas externas do que motivada pelos agricultores. Essa é uma das bandeiras levantadas por aqueles que estão focando em soluções de monitoramento, não diretamente relacionadas a ações que podem ser tomadas com base nos dados para alterar o resultado da safra. Essa tendência vem sendo implementada de uma maneira distinta ao que ocorreu com a agricultura de precisão, que foi motivada pelos produtores que buscavam tirar proveito da variabilidade espacial e pela indústria de máquinas agrícolas que buscava oferecer mais conforto e desempenho nos seus equipamentos. Isso também pode ser um indicativo de que muitas soluções de sucesso nos EUA podem não despertar interesse no Brasil, principalmente as motivadas por legislações bastante distintas.

Rodrigo Gonçalves Trevisan – 16 de Janeiro de 2019

Deixe uma resposta